ARMAMENTO E LETALIDADE: UMA RELAÇÃO QUE VAI ALÉM DO EQUIPAMENTO

Por Edgard Mello, Gerente Operacional de Segurança da G4S Brasil
armamento

Publicado originalmente em 12 de setembro de 2018

Quando se fala do uso de armamento, é comum que uma dúvida apareça. A operação deve incluir armas letais ou não letais para a equipe de vigilantes? Porém, esse questionamento é muito simplificado. Essa é uma escolha complexa que exige conhecimento e estudo de caso.

 
Um dos primeiros pontos para levar em conta nessa discussão é que toda arma, seja ela de fogo ou não, é uma arma letal. Um cassetete, um taser ou um gás de pimenta também podem ser letais quando seu uso é incorreto. Embora menos letais e com menor capacidade de dano à vida e ao ambiente, essas armas também exigem cuidado, treinamento e preparo do vigilante para serem utilizadas da maneira segura.
 
É preciso reforçar que a baixa letalidade de uma operação não se deve ao tipo de arma escolhida, mas à conscientização sobre ela por parte dos profissionais. É preciso que o vigilante esteja ciente de quando, como e onde essa arma deve ser utilizada. Ele deve compreender suas características e os riscos envolvidos. O uso da arma deve ser sempre a barreira final da segurança, nunca a primeira.
 
 
 
Compreendendo as necessidades
 
 
Definir a necessidade do armamento varia de acordo com as características do ambiente, o que exige uma análise situacional aprofundada a cada caso. As informações devem ser reunidas com cautela, para que se alcance uma solução de segurança proporcional à necessidade – sem adicionar outros riscos às pessoas e ao local.
 
Armas menos letais transmitem uma impressão menos agressiva, o que agrega um valor importante de conforto. Isso é especialmente significativo em ambientes com grande circulação de pessoas. Porém, elas exigem o mesmo respeito, treinamento e cautela que o uso de armas de fogo. Independente do tipo de arma portado, cada vigilante deve estar ciente do uso correto e deve ter essas informações em mente o tempo todo, para evitar acidentes.
 
O planejamento da operação deve sempre trabalhar com a menor quantidade possível de armas. Isso porque seu uso não deve ser considerado ativo, mas sim uma última medida de segurança. Hoje, a legislação para a segurança privada é restrita e permite o uso de apenas três tipos de armas de fogo: revólver .32 ou .38, pistola 380 e escopeta .12, e apenas em situações de uso imprescindível. Essa não é e nem deve ser considerada como a principal medida de segurança para uma operação.
 
 
 
Incidentes com armamento
 
 
A conscientização sobre o uso de armas e o treinamento relacionado a isso devem ser constantes. Seguir as políticas de segurança e o fazer uso correto desse equipamento é o melhor jeito de garantir um ambiente seguro. Isso também permite que se trabalhe com menor risco, tanto para o vigilante quanto para as pessoas sob sua proteção.
 
As fases de incidente com armas são as mesmas, independente do tipo de armamento: Temor inicial (quando o profissional ainda tem medo da arma), Medo restringente (quando o medo acontece apenas quando é necessário utilizar a arma). Confiança crescente (quando o profissional começa a acreditar que não há motivo para alarme), Desrespeito ao armamento (quando o profissional descumpre as normas de uso) e, por fim, o Incidente. Evitar o desenvolvimento dessas fases é uma responsabilidade coletiva entre o vigilante e a empresa de segurança, através de treinamentos, reciclagens e políticas constantes de reforço na conscientização.
 
 
 
Soluções integradas para diminuir os riscos
 
 
A melhor forma de reduzir a necessidade do uso de armas de fogo é integrar outras soluções de segurança na operação. Em sítios com armazéns de produtos de alto valor agregado, a presença de vigilantes armados em todas as saídas pode ser evitada com uso de barreiras, cancelas, cercas e outras soluções de segurança perimetral. Alarmes, sensores e câmeras analíticas também são opções inteligentes para esses casos. Assim, o vigilante armado poderá reagir apenas quando e se as barreiras tecnológicas forem transpostas, diminuindo sua exposição ao risco.
 

É preciso compreender que reduzir o risco não é necessariamente reduzir o armamento. O uso correto desse equipamento pode ser útil e salvar vidas, desde que observada a real necessidade de sua presença na operação. Armas são a barreira final da segurança, uma ferramenta de reação a ser utilizada em último caso. Lembre-se: segurança é prevenção – e é isso que deve ser levado em conta antes de decidir como armar sua operação.

*Edgard Mello é gerente operacional de segurança na G4S Brasil, formado em Gestão de Segurança pela FECAP, é especialista em Ciências Policiais pela Fundação Brasileira de Ciências Policiais. Atuando com uma vasta experiência de cerca de 30 anos em gestão e planejamento de operações de segurança.


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